Recioto Scapà: A Lenda do Vinho Doce que Virou Seco
No dialeto do Vêneto, a palavra Scapà significa “escapou” ou “fugiu”. Durante muito tempo, essa foi a única maneira de os camponeses explicarem o surgimento do que hoje chamamos de Amarone. Ele era, literalmente, o vinho que fugiu do controle.
1. A Fuga das Leveduras
Tradicionalmente, o objetivo dos produtores da Valpolicella era fazer o Recioto: um vinho doce, onde a fermentação é interrompida para manter o açúcar natural da uva.
Porém, às vezes, o enólogo se distraía ou não conseguia parar o processo. As leveduras, frenéticas, continuavam a trabalhar até consumirem todo o açúcar disponível, transformando-o em álcool. O resultado era um vinho seco, muito alcoólico e com um fundo amargo.
2. De “Erro” a Ícone Mundial
Historicamente, o Recioto Scapà era considerado um defeito ou um desperdício de uvas preciosas. Quem iria querer beber aquele vinho forte e seco quando a moda era o doce?
A virada aconteceu no século XX, quando o paladar mundial mudou. Assim como o Champagne passou do doce para o Brut, o gosto pelos tintos migrou para os secos e estruturados. O que era um erro técnico tornou-se a maior virtude da região. O “fugitivo” foi capturado, engarrafado e virou lenda.
3. Irmãos de Sangue
Hoje, Amarone e Recioto são irmãos de sangue: vêm das mesmas uvas e do mesmo processo de secagem. A única diferença é o momento em que o homem diz “pare” para a natureza. No Recioto, paramos antes; no Amarone, deixamos a natureza ir até o fim.
Doce ou Seco?
Você prefere a doçura histórica do Recioto ou a potência seca do Amarone? Na nossa adega, você encontra as duas faces dessa mesma moeda.



